SEGUROS ONLINE/INSURETECHS – Promessa, Miragem ou Realidade?

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Não há como negar que seguros online Insuretechs são os assuntos do momento na crista da onda e que é considerado como o futuro modelo de negócios e a vanguarda da indústria de seguros. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas, antes de mais nada, o que são insuretechs?

Basicamente é uma plataforma para venda de seguros online automatizada, que procura transformar a venda de seguros em uma operação online, imediata, desburocratizada e conveniente para o cliente. Ao mesmo tempo, serve para economizar custos administrativos e de mão de obra, que se refletem em custos mais baratos para o cliente final. Maravilha!

Vejo que surgem por aí uma série de sites que supostamente poderiam ser classificados desta forma. Porém, em muitos casos não passam de plataformas bibelôs, que dão um verniz de modernidade a um método tradicional de contratar seguros.

Francamente falando, a maioria acha que uma insurtech é colocar um site no ar oferecendo seus produtos online e gastar uma fortuna em publicidade para que o público possa encontrá-lo. E oferecer produtos que, em alguns casos, são seriamente limitados, a custos escorchantes, apostando na conveniência. Conveniência para quem cara pálida? Isto não é insuretech, e se fosse, seríamos os pioneiros desta tecnologia a duas décadas.

A maioria das plataformas online que tive a oportunidade de explorar informalmente, estão sujeitas aos mesmos gargalos que a venda tradicional encontra. E definitivamente não entregam o que se propõe a entregar: um bom produto, a preço muito competitivo e que pode ser contratado online com alguns cliques. Ou entregam uma meia solução, frequentemente não informando isto claramente ao cliente de antemão. Muitos se aproveitam do fato de que por aqui, ainda se compra seguro como se fosse sabonete.

Vejo, portanto, alguns desafios a serem ultrapassados para que verdadeiras insuretechs possam tornar-se uma realidade no nosso mercado. E sinceramente falando, não vejo como esses desafios podem ser ultrapassados no curto prazo.

 

Alto Investimento, Alta tecnologia e Alto Risco

Insuretechs ainda não são uma realidade consolidada, mesmo em mercados altamente desenvolvidos. O que existe é uma série de startups, e muitas até já ficaram pelo caminho. Não quero com isto insinuar que este modelo é uma ilusão. Não é. E a ideia é brilhante, mas ainda há muito o que se aprender e um longo caminho a ser percorrido, para que o modelo possa ser considerado um sucesso consolidado.

Trata-se de um modelo que exige alto investimento em ferramentas digitais na internet, em tecnologia atuarial, modelos financeiros de precificação, além de margem para um exaustivo processo de tentativa e erro. Seguro é uma questão de risco financeiro e não se pode dizer que a rentabilidade das seguradoras brasileiras têm sido boa nos últimos tempos, mesmo no mercado tradicional. Não vejo os grandes atores deste mercado com apetite para entrar de cabeça antes que o modelo esteja mais consolidado.

 

Qual Produto para seguros online e insuretechs?

Alguém imagina que será possível algum dia comercializar um seguro patrimonial, um seguro petroquímico ou um risco de engenharia em cinco minutos por meio de um tablet? É claro que não. Certos riscos ou modalidades de seguro mais complexos sempre serão comercializados da forma tradicional, caso a caso e sob medida.

Insuretechs pressupõem, portanto, modalidades de seguros mais simples, rentáveis e úteis, cuja subscrição precisa ser rápida e automatizada, de modo a proporcionar o consumo imediato e conveniente. Que produtos são estes?

Alguém aí pensou em seguro automóvel? Ouviram a campainha de resposta errada? Seguro automóvel é útil e necessário. Mas na minha modesta opinião, esta é uma carteira, historicamente, considerada como o patinho feio do mercado. Considerada um mal necessário pelas seguradoras, baixa rentabilidade, altíssima concorrência e alto custo administrativo, tanto para subscrever e contratar, como para administrar e indenizar. Não vejo como a carteira ideal para um bom começo para insuretechs. Talvez em uma segunda etapa.

Para mim, o caminho para começar (e nem vou cobrar pela dica se der certo) são os seguros pessoais, mais especificamente o seguro de vida e o seguro de acidentes pessoais. Todo mundo precisa, resultados de carteira mais controláveis, subscrição fácil, boa rentabilidade, alto valor agregado, baixo custo administrativo. E muito mal explorado do ponto de vista do marketing, especialmente na nova classe média emergente. Aliás, outra dica grátis: na minha opinião é este perfil de clientes que deveria ser buscado inicialmente por este tipo de plataforma.

Nos EUA estes produtos são vendidos em certos limites até em caixas eletrônicos. Porque não insuretechs que vendem estes produtos por aqui?

 

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Subscrição Automatizada? Vamos ser realistas?

Insuretech é uma plataforma capaz de fazer a subscrição de um seguro online, obtendo todos os dados materiais de um risco via um sistema de “big data” que pode ser acessado por qualquer segurador, uma vez autorizado, num piscar de olhos. Somente desta forma é possível precificar o custo do seguro na hora.

Isto já é uma realidade em algumas modalidades de seguro nos EUA e Europa, mas ainda não existe nada sequer parecido com isto no Brasil. Nem sequer há uma perspectiva de plano para que isto seja possível em um futuro próximo, a não ser no caso de dados pessoais ou veículos.

Seguro é uma questão de informação e experiência em grande quantidade durante muito tempo. Francamente falando, a base de dados e experiência do mercado de seguros brasileiro é pífia. E é pífia porque estamos falando de um mercado relativamente pequeno, cujo desenvolvimento tem sido muito aquém do seu real potencial. E para chegar a esta conclusão não precisa de grandes levantamentos. Bastam alguns fatos.

Qual o percentual da frota de automóveis brasileira segurada? Dos 200 e tantos milhões de habitantes, quantos fazem seguro de vida? Qual é a participação da indústria de seguros no PIB? Qual tem sido a sinistralidade das diversas carteiras de seguro nos últimos anos? Qual o índice de fraudes visando lesar as seguradoras, e o que está sendo feito para reduzi-las?

Subscrição é um assunto sério e uma política equivocada costuma levar a sérios prejuízos. Já uma política equivocada automatizada para venda em massa online resulta em catástrofe. Qual é a nossa tecnologia nesta área? Vou responder sem rodeios. Somos amadores, mesmo no que diz respeito a subscrição de vendas tradicionais. Imaginem em um sistema automatizado que deve tomar decisões e precificar sozinho e em massa.

 

Regulamentação e Legislação para Seguros Online

O seguro é um negócio antigo que envolve uma infinidade de interesses, e o planejamento financeiro de um sem número de pessoas e corporações. Este é o motivo de ser uma atividade altamente regulamentada.

Nossa legislação de seguro ainda é aquela do Decreto-lei n. 73 de 1960 baixada no regime militar. O capítulo que trata de seguros no código civil tem meros 45 artigos, muitos dos quais, incompreensíveis, mal explicados e incompletos, pelo menos para quem não tem uma cultura prévia de seguros. Além de um emaranhado de circulares e regulamentações da Susep, que muitas vezes são obscuras, ilógicas e contraditórias.

Some a isso a relevante questão do Código de Defesa do Consumidor, que simplesmente desconsidera muitas particularidades vitais do contrato de seguro, como as obrigações de boa-fé do segurado e pode-se ter uma ideia do quanto há por fazer.

Assim, como uma indústria que depende da agilidade e de alta tecnologia para venda de seguros online em massa deve inserir-se nesta barafunda jurídica? Fica claro que a legislação de seguro mereceria uma séria compilação visando moderniza-la, em primeiro para as operações tradicionais, e depois para regular insurtechs.

Apenas para citar alguns exemplos práticos. Você pode contratar um seguro online e fazer o pagamento na hora, mas a seguradora tem 15 dias para recusar, sem aviso ou motivo. Que segurança uma operação deste tipo tem? E por que o segurado não deveria ter este mesmo direito? Como devem ser tratadas as propostas enviadas e aprovadas de forma eletrônica?

Mais um. Quem vai aprovar e supervisionar os modelos automatizados de subscrição e dimensionamento de prêmio para a contratação de seguros online. E com que tecnologia? Qual o impacto disto em uma nota técnica atuarial? Existem atuários capacitados ao gerenciamento deste tipo de tecnologia?

 

Corporativismo

Recentemente estive pesquisando o site da insuretech americana Lemonade (insuretech sim senhor!), especializada em seguros residenciais. No site e no aplicativo para tablets há a informação “killer prices” e “no brokers”, isto é, preços imbatíveis e sem corretores. Referem-se aos corretores de seguro é claro, o que significa que a venda de seguro direta ao público é permitida. Como todos nós sabemos, por aqui, isto não é permitido de forma alguma, embora algumas “soluções pouco ortodoxas”, para não dizer outra coisa, existem por aí.

Como reagirão as associações de classes a uma plataforma que comece a ter sucesso e a incomodar a concorrência preguiçosa? Sem entrar no mérito, tomemos como exemplo a recente polêmica em relação a plataforma (isto é insuretech?) Youse para venda de seguros online, ou pelo menos, parcialmente online? E o caso do UBER? Não é uma insuretech, mas uma “transportech”. Quem garante que a amarga experiência com as associações de classe pode não ser a mesma?

Os motivos e desculpas são sempre os mesmos. A suposta propaganda enganosa e necessidade de proteger o consumidor. A suposta política de dumping predatório e talvez o conflito de interesse de uma plataforma como esta pertencer a uma seguradora estatal. Não digo que as associações de classe envolvidas nesta polêmica não estejam agindo em boa-fé. Estão sim, e têm exercido seu importante papel de proteção do mercado, de seus fornecedores e segurados.

Mas não há como deixar de perceber um certo tom de corporativismo que é histórico no Brasil. Prefere-se muitas vezes evitar o risco de evoluir e modernizar, aceitando garantias de privilégios “meia boca”.

O objetivo de uma insuretech é, segundo um especialista no assunto, revolucionar a forma como as seguradoras gerenciam riscos e seus clientes e lidam com o mercado. Para fazer isto, será preciso lidar forçosamente com o corporativismo maroto que, às vezes, permeia as mais diversas atividades no Brasil.

Como se vê, o futuro pode ser brilhante, mas ainda deve demorar um bom tanto para tornar-se realidade.

Bom trabalho a todos!

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